Espaço Comercial
Sem categoria

Ataque a portal e TV revelam como cibercriminosos usam o conhecimento para saciar sua ambição

Por diogenesbrandao • 16/06/2026 às 18:21 • 5 min

Na tarde desta segunda-feira (15), o Estado do Pará Online sofreu um ataque vil e fez com que o setor de seguraça do portal tirasse o mesmo do ar por algumas horas. Já nesta terça, outro ataque às redes da TVC Pará também foram atingidas, deixando o prédio da emissora sem internet por um tempo.

Indícios e um histórico de outros casos de infidelidade profissional levam a nossa equipe a suspeitar de um técnico de TI que já esteve envolvido em problemas na Prefeitura de Ananindeua e hoje presta serviço a um deputado estadual que busca sua reeleição. Aliado de Helder Barbalho, o deputado teve, recentemente, um dos seus assessores gravado em uma conversa com o referido técnico e o epsódio acabou sendo digerido como “problema interno” de menor impacto na campanha eleitoral.

No entanto, o fato continua sendo avaliado como uma quebra de confiança sem precedentes e abriu uma grande preocupação entre os principais integrantes do grupo político.

Dados nas mãos de pessoas inescrupulosas

Não é de hoje que técnicos de informática e outros “profissionais” de TI utilizam de seus acessos privilegiados para cometer crimes. O técnico que ilustra o início deste artigo aproximou-se da diração do portal e da TV, teve acesso à nossa empresa e acabou obtendo senhas de Wi-Fi e outras informações que o levaram a usar isso como arma para atividades ilegais.

Em Julho do ano passado, a C&M Software foi alvo do ataque hacker que afetou o Pix em todo o país. A empresa foi vítima de uma invasão em seus sistemas, que resultou na perda de um valor estimado entre R$ 400 milhões e R$ 1,5 bilhão. A investigação do caso levou ao envolvimento de um funcionário de TI da empresa que cooperou com os criminosos.

A transformação digital trouxe benefícios inegáveis para governos, empresas, veículos de comunicação e cidadãos. Entretanto, o mesmo conhecimento tecnológico que impulsiona a inovação pode, quando utilizado sem limites éticos, converter-se em instrumento de pressão, intimidação e obtenção de vantagens indevidas.

Nos últimos anos, o Brasil assistiu ao crescimento de casos envolvendo vazamento de dados, invasões de sistemas, espionagem digital, gravações clandestinas e uso estratégico de informações obtidas em ambientes institucionais. Em muitos desses episódios, o elemento comum não é apenas a tecnologia, mas a relação entre conhecimento técnico, acesso privilegiado e ambição pessoal.

Profissionais de tecnologia desempenham funções essenciais dentro de organizações públicas e privadas. Administradores de rede, analistas de sistemas, desenvolvedores e técnicos de informática frequentemente possuem acesso a informações sensíveis, bancos de dados, credenciais e estruturas críticas. Por essa razão, a confiança torna-se um dos principais ativos dessa relação profissional.

A legislação brasileira trata de forma rigorosa o acesso indevido a sistemas e a utilização não autorizada de dados. O Marco Civil da Internet, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Código Penal estabelecem responsabilidades para quem obtém, compartilha ou utiliza informações sem autorização legítima.

Além das consequências jurídicas, existe uma dimensão ética igualmente relevante. O profissional que utiliza conhecimentos técnicos para monitorar pessoas, pressionar gestores, expor informações sigilosas ou buscar vantagens econômicas por meio da retenção de dados rompe os princípios fundamentais da atividade tecnológica. A competência técnica deixa de ser um instrumento de desenvolvimento para se tornar uma ferramenta de coerção.

O problema se agrava quando o acesso a informações estratégicas é utilizado como moeda de troca. Em vez de proteger sistemas e instituições, o conhecimento passa a servir a interesses particulares. Nesses casos, o poder não está apenas na posse dos dados, mas na capacidade de selecionar o que divulgar, quando divulgar e contra quem utilizar determinada informação.

Veículos de comunicação, órgãos públicos e empresas privadas tornaram-se alvos frequentes de ataques cibernéticos justamente porque armazenam informações valiosas. A segurança digital, portanto, não deve ser vista apenas como questão tecnológica, mas como um desafio de governança, transparência e controle interno.

A sociedade contemporânea exige profissionais cada vez mais qualificados em tecnologia. Contudo, exige também responsabilidade proporcional ao poder que esses profissionais possuem. Conhecimento sem ética pode gerar prejuízos financeiros, danos reputacionais, violações de privacidade e até ameaças à democracia e à liberdade de informação.

Em um ambiente onde dados representam poder, a verdadeira medida do profissional não está na capacidade de acessar informações, mas na sua disposição de respeitar limites legais e morais. Afinal, a tecnologia deve servir ao interesse público, à inovação e à segurança, jamais à intimidação, à chantagem ou à busca de vantagens obtidas pela exploração indevida de informações alheias.

Leia também:

WhatsApp