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Meio Ambiente

Jurista equatoriano defende que Brasil reconheça rios e florestas como sujeitos de direitos

Por diogenesbrandao • 17/06/2026 às 15:06 • 5 min

Reconhecer rios, florestas e outros ecossistemas como sujeitos de direitos é uma das mudanças necessárias para enfrentar a crise climática e ampliar a proteção dos territórios amazônicos. A avaliação é do jurista equatoriano Ramiro Ávila Santamaría, relator do Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, durante debate realizado nesta terça-feira (16), no auditório do Ministério Público Federal (MPF), em Belém.

Considerado uma das principais referências mundiais sobre o tema, Ramiro afirmou que o atual modelo econômico trata a natureza como objeto de exploração, contribuindo para o agravamento da emergência climática. “O imaginário do sistema político e econômico atual é o da natureza como objeto, propriedade privada ou recurso natural. Isso faz com que ela seja vista apenas como um lugar para explorar ou como um grande lixão”, afirmou.

Durante debate em Belém, Ramiro Ávila criticou a exploração de petróleo na Margem Equatorial e defendeu que a natureza seja reconhecida como sujeito de direitos. (Foto: Elielson Almeida)

Segundo o jurista, reconhecer a natureza como sujeito de direitos representa uma mudança de paradigma jurídico já adotada em diferentes países latino-americanos, como Equador, Colômbia e Bolívia. “O antídoto é reconhecer que a natureza é sujeito de direitos. O mundo precisa compreender que nós somos natureza e dependemos dela”, disse.

Durante a palestra, Ramiro também criticou a ampliação da exploração de petróleo na Margem Equatorial brasileira. Para ele, iniciativas desse tipo aprofundam a crise climática. “Abrir o bloco 59 próximo à costa brasileira, em termos de emergência climática, é uma estupidez. Pode enriquecer poucas empresas por algum tempo, mas, a longo prazo, é um suicídio”, declarou.

DIREITO AMBIENTAL

O procurador regional da República Felício Pontes Jr., que também integra o Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, defendeu que o reconhecimento da natureza como sujeito de direitos representa “o passo civilizatório que precisa ser dado pela humanidade neste século XXI”.

Segundo ele, o Direito Ambiental, da forma como está estruturado hoje, não é suficiente para impedir grandes empreendimentos com impactos socioambientais. “O Direito Ambiental é utilitarista. Ele parte do princípio de que a natureza existe para servir às pessoas. Os Direitos da Natureza permitem outro caminho”, afirmou.

Felício lembrou ainda que a primeira ação judicial brasileira fundamentada nos Direitos da Natureza foi apresentada pelo Ministério Público Federal, em 2011, durante as ações envolvendo a Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

Já o procurador-chefe do MPF no Pará, Felipe de Moura Palha, avaliou que o reconhecimento da natureza como sujeito de direitos pode ser construído por meio da interpretação da própria Constituição Federal. “A natureza como sujeito de direitos exige interpretar a Constituição brasileira a partir das diferentes visões de mundo que compõem nossa sociedade”, disse.

EXPERIÊNCIAS DOS TERRITÓRIOS

O debate também reuniu representantes de povos indígenas, comunidades quilombolas e movimentos sociais, que relataram os impactos provocados por grandes empreendimentos na Amazônia. Liderança do Quilombo do Abacatal, em Ananindeua, Vanuza Cardoso afirmou que o território vive cercado por atividades de mineração, aterros sanitários e obras de infraestrutura. “Para nós, a natureza não é mercado. A natureza é parte de nós”, afirmou.

Ela também relacionou as mudanças ambientais às transformações vividas pela comunidade nos últimos anos. “A água está poluída. O açaí quebra o cacho antes da hora. A pupunha cai. Até o calor mudou. Não fomos nós que causamos isso”, disse.

Vanuza Cardoso defende que reconhecer a natureza como sujeito de direitos é também garantir a sobrevivência dos territórios tradicionais. (Foto: Elielson Almeida)

Representando o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), Sila Apurinã afirmou que comunidades afetadas pela exploração de petróleo e gás no Amazonas convivem com perda da pesca, contaminação ambiental e falta de serviços básicos. “As comunidades perderam os peixes, continuam sem energia, sem água e sem alimentação. Que desenvolvimento é esse?”, questionou.

Já a coordenadora do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Odenira Dias, defendeu o reconhecimento dos rios como sujeitos de direitos diante de projetos como a Hidrovia Araguaia-Tocantins. “De um lado existe uma racionalidade econômica que vê o rio como recurso. Do outro, uma racionalidade para a qual o rio é um ser vivo, um parente”, afirmou.

Jurista equatoriano diz que tratar a natureza como recurso agravou a crise climática e defende mudança de paradigma no Brasil. (Foto: Elielson Almeida)

A representante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Andréia Maciel, reforçou que o movimento defende um modelo diferente de exploração mineral. “Não somos contra a mineração. Somos contra esse modelo predatório de mineração”, concluiu.

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