A disputa pela narrativa política no Pará não ocorre apenas nos discursos de palanque, mas, fundamentalmente, nos canais por onde essa mensagem trafega. Quando voltamos o olhar para as regiões Sul, Sudeste e Oeste do estado, observamos um ecossistema de informação cindido, onde a mídia tradicional e as redes sociais operam com lógicas e impactos completamente distintos sobre o eleitorado.
A hegemonia da mídia tradicional: o escudo de Helder e Hana
A presença capilarizada da Rede Brasil Amazônia (RBA) confere a Helder Barbalho e Hana Ghassan uma vantagem assimétrica e estrutural. A televisão e o rádio ainda possuem um peso institucional imenso nas regiões do interior, atuando não apenas como fontes de informação, mas como validadores da realidade política local.
O controle da pauta e o “Estado em Obras”
Através da força da TV aberta e das rádios e portais de notícias, além das páginas que atuam com força nas redes sociais regionais, o ex-governador e a atual governadora, que segue no cargo para a reeleição, conseguem ditar a agenda pública, focando de forma massiva em entregas de infraestrutura, inaugurações e programas sociais.
Blindagem estratégica
A comunicação de massa tradicional tem sido usada pela SECOM e agências abastecidas com milhões de reais da verba publicitária estatal, na busca de um efeito pacificador. Ela suavizou as contradições ideológicas dos governo Helder e Hana, mas não dilui a visibilidade da oposição. Para o eleitor paraense, sobretudo do interior, a imagem projetada diariamente na TV, rádio, jornais, blogs e portais na internet é a da estabilidade e do pragmatismo, numa tentativa de blindar Helder da polarização nacional, o próprio tem usado suas redes para afirmar que não é de esquerda.
As redes sociais: a trincheira de Daniel Santos e da direita
Se a mídia tradicional é o território controlado por Helder e Hana, as redes sociais e os aplicativos de mensagens instantâneas (WhatsApp, Telegram) são, há muito tempo, o espaço de guerrilha por onde fluem os discursos da oposição e as narrativas de Daniel Santos e seus aliados.
Nas eleições presidenciais de 2018 e 2022, o expressivo percentual de votos da direita conservadora nos municípios do Sul, Sudeste e Oeste paraense não foi alavancado pela televisão, mas sim pela capilaridade das plataformas digitais. Esse eleitorado consome informação política por vias alternativas, que premiam o engajamento, a estética de enfrentamento e a agilidade.
A “Pejotização” da política e o contato direto
Daniel Santos utiliza as redes para contornar a falta de uma máquina midiática tradicional própria ou que ele precise disputar com o governo, investimentos, já que eles são caríssimos. Através de vídeos dinâmicos e comunicação direta, ele hiper-pessoaliza sua gestão, tentando projetar para o resto do estado a imagem de um gestor moderno e independente, além de realizador de grandes obras, sobretudo de urbanização, mesmo que muitas delas, já estejam deteriorando sem manutenção.
O risco da superexposição
O ambiente digital, contudo, é uma faca de dois gumes. É por meio da mesma velocidade das redes sociais que as contradições de Daniel – como as revelações recentes sobre seu acúmulo e crescimento financeiro extratosférico do patrimônio da família, voos em jatos particulares e o histórico partidário na centro-esquerda, assim como a manutenção de aliados da esquerda ao seu redor e na Prefeitura de Ananindeua, – são viralizadas, dificultando sua total aceitação pelo núcleo duro e mais ideológico do eleitorado de direita.
A dissonância cognitiva do eleitor
O resultado desse choque de plataformas é um eleitorado submetido a uma verdadeira dissonância cognitiva.
O cidadão de cidades como Marabá, Redenção ou Santarém assiste, no telejornal regional, a um estado administrado sem atritos e focado em resultados. Contudo, ao abrir o celular, o mesmo eleitor é engolido por um cenário de polarização estridente, denúncias contra a máquina pública e apelos emocionais que ecoam a divisão nacional.
A verdadeira batalha por esse eleitor não se resume apenas a convencê-lo de quem é o melhor candidato, mas passa por dominar o canal que, no final das contas, terá maior peso em sua decisão: a tela da TV que promete segurança e presença do Estado, ou a tela do celular que mobiliza a indignação e o sentimento de pertencimento ideológico.
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