Belém deve receber data center para inteligência artificial; projeto gera expectativas e questionamentos

Por diogenesbrandao | 30/06/2026 às 12:05
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Belém terá um grande Data Center em 2027. Anunciado pela Elea Data Centers, o projeto prevê investimento inicial de R$ 250 milhões para construir o BEL1, uma unidade com capacidade inicial de 7,5 megawatts (MW), prevista para entrar em operação no segundo trimestre de 2027. Segundo a empresa, a estrutura poderá ser ampliada até atingir 100 MW.

Os data centers são grandes centros de processamento e armazenamento de dados. Eles concentram milhares de servidores que funcionam ininterruptamente para hospedar aplicações digitais, serviços em nuvem e, mais recentemente, sistemas de inteligência artificial, que demandam capacidade computacional muito superior à utilizada por serviços tradicionais.

No caso de Belém, a Elea afirma que o empreendimento será um data center neutro, capaz de atender diferentes clientes, e dedicado às aplicações de IA. A empresa ficará responsável pela implantação e operação da unidade, enquanto a AXIA Energia fornecerá eletricidade renovável por meio de contratos de longo prazo.

Por que Belém?

Segundo a Elea, a escolha da capital paraense está relacionada à combinação entre disponibilidade de energia e localização estratégica para conectividade.

Belém integra o programa Norte Conectado, que amplia a infraestrutura de fibra óptica na Amazônia por meio das infovias digitais. Além disso, a cidade pode funcionar como uma rota complementar à infraestrutura hoje concentrada em Fortaleza, principal ponto brasileiro de chegada dos cabos submarinos internacionais que conectam o país à Europa e aos Estados Unidos.

O projeto começou a ser estruturado em 2024, após a confirmação de Belém como sede da COP30, conferência climática das Nações Unidas.

O que os defensores argumentam

Para empresas do setor e parte do governo federal, a expansão dos data centers representa uma oportunidade para inserir o Brasil na economia da inteligência artificial.

Na última semana, a Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que cria incentivos para o fornecimento de energia limpa a data centers instalados nas regiões Norte e Nordeste.

O texto prevê estímulos para contratos de longo prazo com geradoras de energia renovável e cria o selo voluntário “DataCenter Verde Regional”.

Segundo o relator da proposta, deputado Josenildo (PDT-AP), a medida pode estimular o desenvolvimento tecnológico, atrair investimentos e gerar empregos e renda nas regiões Norte e Nordeste.

Além disso, o governo federal discute uma política nacional para incentivar a instalação desse tipo de infraestrutura, considerada estratégica para ampliar a soberania digital brasileira e reduzir a dependência de centros de processamento instalados no exterior.

O outro lado: consumo de água, energia e impactos ambientais

Ao mesmo tempo em que cresce o interesse pelo setor, também aumentam os questionamentos sobre seus impactos ambientais.

Uma reportagem publicada pelo jornal Nexo, em abril deste ano, mostrou que a construção de um data center da ByteDance, empresa proprietária do TikTok, em Caucaia, no Ceará, provocou protestos do povo indígena Anacé.

As lideranças indígenas afirmam que o empreendimento poderá comprometer a disponibilidade de água, provocar impactos ambientais permanentes e foi licenciado sem consulta prévia às comunidades, prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Segundo a reportagem, um dos principais desafios dos data centers voltados à inteligência artificial é justamente o elevado consumo de energia elétrica e de água utilizada para resfriar milhares de servidores que operam continuamente.

O caso também é alvo de investigação do Ministério Público Federal, que apura possíveis irregularidades no processo de licenciamento ambiental e questiona a adoção de um Relatório Ambiental Simplificado (RAS), em vez da realização de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima).

Especialistas ouvidos pelo Nexo afirmam que a legislação ambiental ainda não possui regras específicas para esse tipo de empreendimento, criando um vácuo regulatório que tem permitido licenciamentos menos rigorosos em alguns estados.

A discussão também ocorre em outros países da América Latina. Pesquisadores citados pela publicação apontam que Chile, México, Colômbia e Uruguai enfrentam desafios semelhantes diante da rápida expansão dos data centers, especialmente relacionados ao consumo de recursos naturais, emissões indiretas e baixa geração permanente de empregos.

Debate também repercute entre moradores de Belém

O anúncio da Elea também dividiu opiniões nas redes sociais.

Entre as principais preocupações manifestadas por moradores estão o possível aumento da pressão sobre o abastecimento de água, o consumo de energia elétrica e os impactos ambientais em uma cidade que já enfrenta problemas históricos de saneamento.

Outros internautas defenderam a chegada do empreendimento, argumentando que a infraestrutura tecnológica é essencial para o desenvolvimento econômico, para a expansão da inteligência artificial e para atrair novos investimentos ao Pará.

Também houve quem defendesse que o debate deveria estar centrado na ampliação da infraestrutura urbana, do abastecimento de água e do saneamento básico, para que a cidade esteja preparada para receber grandes empreendimentos tecnológicos.

O que ainda não foi divulgado

Embora tenha confirmado o investimento inicial de R$ 250 milhões, a Elea ainda não informou quais serão os clientes do BEL1, o volume de energia contratado, a quantidade de água necessária para operação da unidade, os sistemas de refrigeração que serão utilizados, nem quantos empregos permanentes serão gerados após a conclusão da obra.

Também não foram apresentados estudos públicos sobre os impactos ambientais do empreendimento ou informações detalhadas sobre o processo de licenciamento da futura instalação.

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