O cenário político paraense ganhou contornos de forte pragmatismo e ambiguidade ideológica nesta semana. Lideranças de esquerda e apoiadores locais confirmaram para esta quinta-feira, 2 de julho, às 17h30, na Travessa Apinagés (bairro de Batista Campos), o lançamento oficial de um movimento que defende o voto casado entre o presidente Lula (PT) , à reeleição, e o ex-prefeito de Ananindeua, Daniel Santos (PODE), ao Governo do Pará.
O evento pró-chapa informal “Lula-Daniel” ocorre apenas duas semanas após o pré-candidato subir no palanque, dia 11 de junho, em Belém, ao lado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal oponente do lulismo no plano nacional.

A estratégia de “jogo duplo” adotada por Dr. Daniel tenta capturar o eleitorado dos dois polos da política brasileira em um estado historicamente marcado pela força da esquerda – onde Lula venceu o segundo turno de 2022 tanto na média estadual quanto na capital paraense, obtendo 50,28% dos votos válidos em Belém.
O desempenho de Lula já havia se desenhado no primeiro turno, quando ele largou na frente com 45,74% dos votos (392.207 votos), contra 43,21% de Bolsonaro (370.564 votos). Naquela etapa, o restante do eleitorado de Belém dividiu-se entre Simone Tebet (MDB), com 6,54% (56.081 votos), Ciro Gomes (PDT), com 3,33% (28.536 votos), e Soraya Thronicke (União), com 0,66% (5.646 votos).
O pré-candidato justifica esse movimento de junção de espectros opostos como uma necessidade para construir uma oposição competitiva no Pará.
Entre o bolsonarismo e o lulismo: as duas semanas que expuseram o candidato
O evento desta quinta-feira destoa com a agenda cumprida por Dr. Daniel no último dia 11 de junho.
Na ocasião, ele foi o anfitrião da comitiva do senador Flávio Bolsonaro em Belém, em um ato político costurado pelos deputados federais Éder Mauro (PL) e Joaquim Passarinho (PL), que atuam como fiadores de Daniel junto à cúpula conservadora nacional para rivalizar com o grupo da governadora Hana Ghassan (MDB).
O histórico recente ilustra a rapidez da mudança de posicionamento do pré-candidato:
Alineamento com a Direita
11 de Junho de 2026
Dr. Daniel divide palanque com Flávio Bolsonaro em Belém. Defende pautas do agronegócio e a flexibilização de licenças ambientais para mineração. No evento, enfrenta vaias de uma parte dos apoiadores que estavam no local, que o manda “descer do muro” devido ao seu passado no PSB.
Aceno à Esquerda
28 de Junho de 2026
Após articulação da ex-secretária municipal Lívia Noronha, o político recua das críticas e aceita publicamente o nascimento do movimento de apoio mútuo entre sua candidatura e a de Lula.
Ato da Frente Ampla
02 de Julho de 2026
Realização do encontro político na Travessa Apinagés, em Belém, para consolidar a militância mista “Lula Presidente e Daniel Governador”.
Pragmático ou sem lado? A reação das bases
A ausência de uma definição ideológica clara por parte de Dr. Daniel transformou sua pré-candidatura em alvo de contestação nos dois extremos. Na direita tradicional paraense, nomes como o prefeito de Marabá, Toni Cunha (PL), criticam publicamente a aliança selada por Flávio Bolsonaro, acusando o ex-prefeito de Ananindeua de adotar uma postura puramente conveniente e eleitoreira, sem representar a “direita raiz”.
O histórico partidário do médico corrobora a tese de seus críticos sobre a falta de uma identidade fixa: Daniel iniciou a carreira no PSDB (centro), migrou para o PSB (centro-esquerda) – legenda pela qual se reelegeu prefeito em 2024 mantendo canais abertos com o governo federal -, passou pelo Podemos sob a influência do senador Zequinha Marinho e, recentemente, buscou o abrigo do PL.
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