Ananindeua depois de 2026: a eleição municipal que já começou

Por diogenesbrandao | 18/06/2026 às 14:44
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As eleições estaduais deste ano terão efeito direto no futuro político de diversos municípios paraenses, mas em Ananindeua será diferente dos demais. O segundo maior município do Pará não será apenas um espectador do processo eleitoral estadual. Pelo contrário: será um dos principais territórios afetados pelo rearranjo de forças que sairá das urnas.

É de Ananindeua que partem alguns dos movimentos mais importantes da política paraense atual. Daniel Santos, ex-prefeito do município, deixou a prefeitura para disputar o governo do Estado em uma eleição marcada pelo confronto direto com Hana Ghassan, candidata à sucessão do grupo liderado por Helder Barbalho. Helder, por sua vez, deixou o governo para disputar o Senado, enquanto Chicão, presidente da Assembleia Legislativa do Pará, também aparece no tabuleiro como nome relevante da base governista para a segunda vaga ao senado e conta para isso com a máquina do estado, que diga-se de passagem, tem eleito os últimos senadores nas eleições paraenses.

Exemplo mais próximo foi Beto Faro, eleito na chapa de Helder, mesmo estando em último lugar nas pesquisas eleitorais realizadas dois meses antes da eleição de 2022. Beto saiu de 2% das pesquisas e acabbou eleito senador com 42,55% dos votos válidos.

O resultado dessa equação eleitoral não termina em outubro. Ele apenas inaugura uma nova fase.

Em 2028, Ananindeua será disputada com unhas e dentes. Não necessariamente pelos mesmos nomes que hoje protagonizam a eleição estadual, mas por seus indicados, aliados, herdeiros políticos ou representantes diretos. A cidade virou grande demais para ser tratada como peça secundária ou como cidade dormitório, como era apelidada anos atrás.

Quem controla Ananindeua controla uma vitrine administrativa, uma máquina política poderosa, uma base eleitoral metropolitana e um território estratégico entre Belém, Marituba e Benevides, os três municípios mais populosos da região metropolitana. O primeiro ponto a observar é o futuro do grupo de Daniel Santos.

Caso Daniel vença a eleição para governador, Ananindeua tende a se tornar uma prioridade política natural de seu governo. O município seria o berço de sua ascensão estadual e, por isso, dificilmente ficaria fora da estratégia de manutenção de poder. Nesse cenário, o nome apoiado por Daniel em 2028 teria a missão de preservar seu legado local e impedir que adversários ocupem o espaço deixado por ele.

Caso Daniel perca a disputa estadual, o desenho muda, mas Ananindeua continuará sendo central. Uma derrota para o governo não significaria, automaticamente, o fim de sua influência no município. Ao contrário: poderia transformar Ananindeua em trincheira política, base de reorganização e ponto de partida para uma nova ofensiva eleitoral. Nesse caso, o grupo precisaria escolher um nome capaz de dialogar com a memória administrativa de Daniel, mas também com o desgaste natural de quem deixou a prefeitura antes do fim do mandato para disputar outro cargo.

Do outro lado, o grupo governista sabe que não basta vencer o Estado se não conseguir avançar em Ananindeua. Para Helder, Hana e aliados, o município tem valor simbólico e prático. Simbólico porque foi ali que Daniel construiu parte importante de sua força eleitoral. Prático porque Ananindeua tem densidade populacional, peso orçamentário, capilaridade comunitária e influência direta na Região Metropolitana de Belém.

Se Hana vencer o governo, a disputa de 2028 em Ananindeua poderá ser tratada como uma operação de retomada territorial. O grupo governista teria dois anos para organizar uma candidatura competitiva, aproximar lideranças locais, fortalecer alianças partidárias e oferecer ao eleitor uma alternativa ao ciclo político de Daniel. Se Hana perder, ainda assim Ananindeua seguirá no radar, agora como espaço de resistência e reconstrução da base estadual.

Há ainda o fator Hugo Atayde. Atual ocupante da prefeitura após a saída de Daniel, ele tem a caneta, a máquina e a obrigação de mostrar musculatura própria. O desafio é simples de entender e difícil de executar: transformar a condição de sucessor institucional em liderança eleitoral real. Em política, herdar o cargo é uma coisa; herdar voto é outra completamente diferente. A urna costuma cobrar essa diferença sem dó, sem carinho e sem cafezinho.

Também não se pode ignorar nomes que podem ser reposicionados conforme o resultado estadual. Lideranças ligadas ao PT, ao MDB, ao PSDB, ao Podemos, ao União Brasil e a outros partidos devem recalcular seus movimentos. A depender do desempenho de Helder ao Senado, de Chicão na chapa governista, de Hana ao governo e de Daniel na oposição, Ananindeua poderá assistir a uma recomposição profunda: antigos adversários podem se aproximar, aliados podem se dividir e nomes hoje secundários podem ganhar centralidade.

A eleição municipal de 2028, portanto, não será uma disputa isolada por prefeitura. Será a continuação da guerra política estadual em escala municipal. Ananindeua será laboratório, vitrine e campo de batalha. O eleitorado local verá campanhas tentando responder a três perguntas principais: quem representa continuidade? Quem representa mudança? E quem tem força real para governar sem depender apenas da sombra de padrinhos políticos?

No fundo, a grande disputa será pela narrativa. O grupo de Daniel tentará defender a ideia de continuidade, legado e força popular construída no município. O grupo de Helder e Hana buscará apresentar Ananindeua como uma cidade que precisa se reconectar ao projeto estadual, ampliar parcerias e virar uma página política. No meio disso, os atores locais tentarão provar que não são apenas peças no tabuleiro dos grandes caciques.

Depois das eleições deste ano, Ananindeua não entra em pausa. Entra em pré-campanha permanente.

E 2028, para quem entende o mínimo de política, já começou.

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